Sobre                        Contato                        Arquivo

Os perdedores

O PT investe na indignida-de e na difamação. Por isso, perdendo ou ganhando, já perdeu

A semente transgênica e o Código Florestal; a hidrelétrica e a licença ambiental; os evangélicos e os jovens libertários; o Estado e as ONGs; os serviços públicos e os tributos; a “nova política” e o Congresso; a política e os partidos; o PSB e a Rede. Na candidatura de Marina Silva, não é difícil traçar círculos de giz em torno de ângulos agudos, superfícies de tensão, contradições represadas. O PT preferiu investir na indignidade, na mentira, na difamação. Por isso, perdendo ou ganhando, já perdeu.

As peças incendiárias de marketing, referenciadas no pré-sal e na independência do Banco Central, inscrevem-se na esfera da delinquência eleitoral. A primeira organiza-se em torno de uma mentira (a suposta recusa de explorar o pré-sal), de cujo seio emana um corolário onírico (a “retirada” de centenas de bilhões de reais supostos e futuros da Educação). A segunda converte em escândalo um modelo que pode ser legitimamente combatido, mas está em vigor nos EUA, no Canadá, no Japão, na União Europeia, na Grã-Bretanha e no Chile—e que, no Brasil, surgiu embrionariamente sob Lula, durante a gestão de Henrique Meirelles.

Na TV, o partido do governo acusa a candidata desafiante de conspirar com banqueiros para lançar os pobres no abismo da miséria. O fenômeno vexaminoso não chega a causar comoção, pois tem precedentes. Contra Alckmin (2006) e Serra (2010), o PT difundiu as torpezas de que pretendiam privatizar a Petrobras e cortar os benefícios do Bolsa Família, ambas já reprisadas para atingir Marina. A diferença, significativa apenas no plano eleitoral, está na circunstância de que, agora, a ignomínia entrou no jogo antes do primeiro turno. A semelhança, por outro lado, evidencia que o PT aposta na ignorância, na desinformação, na pobreza intelectual—enfim, no fracasso do país.

Algo se rompeu quando eclodiu o escândalo do mensalão. Naquela hora, os intelectuais do PT depredaram a praça do debate político, ensinando ao partido que a saída era qualificar a imprensa como “mídia golpista” e descer às trincheiras de uma guerra contra a opinião pública. A lição deu frutos envenenados. O STF converteu-se em “tribunal de exceção”, e os políticos corruptos, em “presos políticos”. Os críticos passaram a ser classificados como representantes da “elite branca paulista” (se apontam as incongruências da “nova matriz econômica”), “fascistas” (se nomeiam como ditadura todas as ditaduras, inclusive as “de esquerda”) ou “racistas” (se objetam às leis de preferências raciais).

O projeto de um partido moderno de esquerda dissolveu-se num pote de ácido que corrói a convivência com a opinião dissonante. Do antigo PT, partido da mudança, resta uma sombra esmaecida. As estatísticas desagregadas das sondagens eleitorais revelam o sentido da regressão histórica. A presidente-candidata tem suas fortalezas no Nordeste e no Norte, nas cidades pequenas e entre os menos escolarizados, mas enfrenta forte rejeição no Centro-Sul, nas metrópoles e entre os jovens. Não é um “voto de classe”, como interpretam cientistas políticos embriagados com um economicismo primário que confundem com marxismo. É um voto do país que, ainda muito pobre, depende essencialmente do Estado. A antiga Arena vencia assim, espelhando um atraso social persistente.

Obviamente, a regressão tem causas múltiplas, ligadas à experiência de 12 anos de governos lulopetistas que estimularam o consumo de bens privados, mas não produziram bens públicos adequados a um país de renda média. A linguagem, contudo, ocupa um lugar significativo. O país moderno, cujos contornos atravessam todas as regiões, sabe identificar a empulhação, a mistificação e a truculência.

Na sua fúria destrutiva, a campanha de Dilma explode pontes, queima arquivos. O PT pode até triunfar nas eleições presidenciais, mas já perdeu o futuro.

Postado por Demétrio Magnoli, Folha de S. Paulo em 20/09/14
política · marina silva, pt
Enviar   Imprimir   Fonte

Corrupção de Sarney a Lula

image O ebook Corrupção de Sarney a Lula pode ser baixado gratuitamente em três formatos: PDF (para imprimir), EPUB (para iPad) e MOBI (para Kindle). Uma versão em inglês (capa acima) está a venda na Amazon.com.

Posts recentes


O programa econômico do PT

Mais impostos, leniência para as empreiteiras e empréstimos da China, é o que a direção do PT quer que Dilma fala.

Luta interna

O pau está comendo no Partido Trabalhista britânico. Peter Mandelson, ex-ministro de Tony Blair, acusa o novo líder Jeremy Corbyn de empurrar o partido para a extrema esquerda e o desastre eleitoral.

Narrativas

Tenho um problema com a ideia de que "nada substitui uma narrativa limpa" para mover as pessoas. Primeiro, porque me soa uma simplificação e um exagero: nem só por narrativas se movem as pessoas. Segundo, porque narrativas limpas costumam ser falsas.

Abre a roda

Não acredito muito em prédio de segurança máxima. Se o governo, gastando uma baba, não consegue manter a tigrada dentro das penitenciárias, imagina se o modesto orçamento do nosso condomínio dá para pensar em manter do lado de fora.

Fruto venenoso

É triste que a república fundada por Benjamin Franklin ainda chafurde no racismo. Pior, um racismo inspirado pelo anti-intelectualismo que contagia grande parte do povo e da elite política americana.

Pecados originais

Os pecados do PT no poder se inspiram no revolucionarismo comunista, no populismo católico e, principalmente, no estatal-corporativismo sindicalista, que estão no DNA do partido.

Vai que é tua, companheiro!

O Estadão adianta que Rui Falcão e seu grupo vão propor uma guinada à esquerda do PT no congresso que começa amanhã. Desejo-lhes boa sorte nisso. E torço para que se inspirem em Paul Singer.

Afronta ao eleitor

Membros do meu partido dizem que Lula, Dilma e o PT "desmoralizaram a reeleição". Outros argumentam que no Brasil a reeleição não dá pé porque o Estado é inchado e o chefe do Executivo tem poderes demais. Não me convencem.

Piorando o imperfeito

A reforma política periga sair como o ajuste fiscal: as autoridades eleitas fazem besteira e mandam a conta para nós, eleitores/contribuintes.

Surpresa!

O PSDB discutiu pouco e nunca resolveu nada sobre reforma eleitoral. Decidir seria difícil, com opiniões tão divididas. Mas, se tivesse discutido, pelo menos não seria surpreendido pelo racha na votação do distritão.

Fachin em campanha

Pelo menos tres empresas especializadas - Medialogue, Pepper, F7 Comunicação - assessoram Fachin em sua campanha para o STF. Na sabatina, segundo editorial da Folha, ele disse não saber quem pagou as empresas.

Política e xadrez

Uma anedota atual e uma citação histórica para quem gosta de comparar a política com o xadrez.

Voto distrital para vereador

Hoje o sistema é inviável financeira e operacionalmente para os candidatos, e ineficiente para o eleitor, já que é muito difícil para ele se orientar com a quantidade de nomes nas listas de candidatos dos partidos. O sistema eleitoral precisa ser um processo mais inteligível e atraente para o eleitor. Para se eleger vereadores, o voto distrital cumpre essa função.

O placar do impeachment

As provas e argumentos jurídicos são importantes, mas o que decide o impeachment, você sabe, são os votos dos deputados e senadores.
Mais posts