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O voo do cuitelinho

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo, 14/02/10

A música de Pena Branca, recentemente falecido, faz parte da combinação de popular e erudito tão própria da cultura caipira

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Quando José Ramiro Sobrinho, falecido há pouco dias, e seu irmão mais moço, Ranulfo Ramiro da Silva, escolheram o nome artístico de Pena Branca e Xavantinho quase cometeram um erro que poderia condená-los ao limbo que obscureceu o talento de tantas outras duplas de música sertaneja. Mais tarde, escolhas acertadas de repertório e a espontânea naturalidade de sua cantoria deram-lhes a notoriedade que faria do nome artístico da dupla um símbolo poderoso do retorno do caipira à musicalidade popular. Pena Branca e Xavantinho acabaram encontrando seu lugar no movimento crítico e criativo de renascimento do que se chamou impropriamente de música de raiz, supondo-a música que recua aos tempos de Cabral.

Esse movimento tem tido protagonistas admiráveis, nem todos trabalhadores da roça como eles, e se situa na tendência mais ampla e antiga de reencontro de referências culturais identitárias de paulista e de brasileiro, um movimento, na origem, muito mais associado à República do que à Independência. Portanto, um movimento da nossa modernidade e nela a recusa das desidentificações amplamente disseminadas pela globalização que já nos alcançava no final do século 19. Nossa inocente adesão à globalização, como renúncia de identidade, acabou tendo consequências na própria música sertaneja. A estranha adoção de trajes e chapéus de vaqueiros texanos, até por bons cantores, já indicia um hibridismo cultural e quanto estamos perdidos de nós mesmos.

Chamou-se de música caipira o que era, de fato, a música sertaneja, criada pelo paulista de Tietê Cornélio Pires, de família antiga de São Paulo. Em 1929, ele lançaria os primeiros discos desse gênero, com a Moda do Bonde Camarão. Essa moda de viola, vista de hoje, definia a matriz culturalmente referencial do que será por muito tempo a nossa música sertaneja. Nela, diferentes modalidades de ironia crítica contra os absurdos da cidade moderna e, portanto, em nome dos valores da sociedade que na roça tinha seu modo de ser e sua mentalidade característica. Já nos fins do século 19 o pintor ituano Almeida Júnior abandonava a temática europeia para fazer do caipira e da luminosidade da roça o tema de seus quadros, como em Amolação Interrompida, Caipiras Negaceando e Caipira Picando Fumo. Nem lhe faltou a significativa referência à viola e à moda de viola em O Violeiro, de 1899.

O que se expressou na pintura expressou-se, também, na literatura, com Monteiro Lobato, Otoniel Mota e Valdomiro Silveira, autores que, em diferentes graus, reconheceram no dialeto caipira uma língua de identidade, instrumento de um modo culturalmente singular de ser, que era o do caipira. É compreensível que no misto de regionalismo e nacionalismo desse movimento cultural se revalorizasse o falante de uma língua dialetal que era remanescente da resistência cultural à imposição da língua portuguesa ao povo brasileiro, no século 18, quando o rei de Portugal proibiu que aqui se falasse o nheengatu, nossa língua popular. Os silenciados por essa proibição, que tinham enorme dificuldade para pronunciar as palavras da língua portuguesa, que era língua de repartição pública, sobretudo pelas muitas consoantes desacompanhadas de vogais, passaram a falar português com sotaque nheengatu. Portanto, cuié no lugar de colher, muié no lugar de mulher, bataia no lugar de batalha, mortaia no lugar de mortalha. Esses autores incorporaram de vários modos essa linguagem e Valdomiro Silveira, mais do que ninguém, o fez, como em O Mundo Caboclo e, sobretudo, em Lereias, uma coletânea de contos escritos em dialeto caipira.

Cornélio Pires, escritor, levou anos amadurecendo a criação da música sertaneja de inspiração caipira. Protestante, como Otoniel Mota, em 1910 promoveu no Mackenzie, escola presbiteriana de São Paulo, uma conferência sobre o caipira e a apresentação de grupos de catira, dança ritual masculina, o cateretê, originalmente uma dança indígena. Foi o interesse protestante por essas tradições que abriu o caminho para a secularização da música caipira sob a forma de música sertaneja, dado que aquela era, originalmente, música sobretudo de conteúdo religioso. Além do cateretê, a dança de Santa Cruz e a dança de São Gonçalo, e as folias do Divino e dos Santos Reis, todas elas práticas devocionais do catolicismo popular herdado dos tempos coloniais.

As adaptações jesuíticas da cultura indígena às premissas e aos princípios da religião católica criaram as bases da cultura caipira que entre nós floresceu e se institucionalizou no século 18, com a gestação do dialeto caipira. Indígena e católica, a cultura caipira é marcada por uma duplicidade de orientação (como também aconteceria com o negro) em que a pessoa, de diferentes modos, tenta dizer duas coisas opostas ao mesmo tempo. O que é próprio de culturas de povos reprimidos, que falam a língua de quem os domina e nela embutem a própria fala subalterna para dizer outra e diversa coisa, o que normalmente ocorre no desencontro entre língua falada e língua gestual.

Essa característica do caipira já não era mais percebida quando surgiu Romaria, de Renato Teixeira, em 1978. Não só a beleza da composição, mas a primorosa arquitetura da poesia traz para o primeiro plano, justamente, essa duplicidade tão própria da cultura caipira, em que o autor diz uma coisa dizendo outra e dizendo as duas ao mesmo tempo. Renato Teixeira nessa obra expõe quanto o popular e o erudito constituem uma combinação tão própria das origens da cultura caipira. É no retorno a essa erudição de origem e aos seus arquétipos, pode-se dizer, que se insere a obra de Pena Branca e Xavantinho. Mas também a riqueza do movimento que tem inspiradores e protagonistas no violeiro Renato Andrade, na cantora Inezita Barroso e no contador de causos Rolando Boldrin. E continuadores e artesãos de uma nova geração que, além do próprio Renato Teixeira, incluem Ivan Vilela, Tavinho Moura, Almir Sater, Fernando Deghi, Pereira da Viola e outros mais.

Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Entre outros livros, autor de A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34)

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