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A resistência mexicana

Marc Lacey, O Globo, 07/07/10

A mensagem dos eleitores é a de que não há mais um partido que mande no México

Bombas contra escritórios de campanha, candidatos ameaçados e mortos, corpos pendurados de pontes na manhã da eleição. Ainda assim, os eleitores mexicanos apareceram em número relativamente grande para escolher novos governadores, prefeitos e deputados estaduais domingo passado, enviando uma mensagem inspiradora em meio a toda a violência: a democracia mexicana resiste.

Uma das facções mais poderosas do país — os chefões do tráfico de drogas — tentou tumultuar o processo. Com um banho de sangue, eles conseguiram manter o comparecimento baixo em alguns estados e amedrontar funcionários eleitorais. Luis Carlos Ugalde, ex-presidente do Instituto Federal Eleitoral, lamentou ter sido esta a primeira eleição mexicana na qual os traficantes conseguiram interferir.

Mas o pleito seguiu adiante e os resultados foram aceitos, com os eleitores parecendo querer distância de candidatos ligados ao narcotráfico. No estado de Tamaulipas, fronteira com os Estados Unidos, o povo parecia interessado em demonstrar que os chefes do tráfico não deveriam decidir as eleições, e votou em peso no irmão do candidato assassinado a menos de uma semana das eleições.

Analistas políticos tinham previsto uma grande vitória do oposicionista Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o México por 71 anos até ser banido do poder pelos eleitores, há uma década. O PRI ficou com nove dos 12 governos estaduais em disputa, incluindo Tamaulipas. Mas a mensagem mais clara que os eleitores parecem ter enviado é a de que não há mais um partido político que mande no México e que as máquinas partidárias não mais mantêm o poder sob grilhões. Os eleitores mexicanos estavam claramente frustrados com a violência que o país experimenta, conforme mostraram entrevistas, e o fato de que muitos tenham ido às urnas em áreas particularmente perigosas foi digno de nota.

“Voto com esperança, mas também com medo”, disse Christian Licona, um desempregado que votava pela primeira vez em Ciudad Victoria, capital de Tamaulipas. Seu irmão, contudo, decidiu que era muito arriscado e ficou em casa, embora soldados montassem guarda em muitas zonas eleitorais para impedir que os traficantes interferissem ainda mais do que já o tinham feito.

O PRI, um partido que por décadas representou um poder autocrático e que tenta se reinventar como pragmaticamente eficiente, manteve o domínio de seis estados e ganhou outros três do Partido da Ação Nacional (PAN), do presidente Felipe Calderón, e do esquerdista Partido Revolucionário Democrático (PRD).

Zacatecas, que estava na ala da esquerda há doze anos, está agora com o PRI. Da mesma forma Aguacalientes, dominado pelo mesmo número de anos pelo PAN de Calderón, e Tlaxcala, em cujo governo o PAN e o PRD têm se alternado desde 1998. Mas o PRI perdeu o boné nos estados de Oaxaca, Puebla e Sinaloa, onde seu poder era tão certo como o mercado abrir na segunda-feira e os vendedores de tortilha montarem suas bancas.

Alguns consideraram os resultados um impasse. “Os resultados não mos tram uma vitória ou um reforço de posições”, disse à agência Reuters o analista político mexicano Fernando Dworak. “Os prognósticos para 2012 são reservados, já que muita coisa ainda pode acontecer.”

Mas outros consideraram que o processo foi o vencedor. “Talvez o destaque das eleições de domingo seja que a democracia se mostrou surpreendentemente saudável no México”, disse Andrew Selee, diretor do Instituto Mexicano no Woodrow Wilson Center, em Washington.

Foi preciso uma incomum coalizão de candidatos do PAN e do PRD, ideologicamente opostos, para tirar o PRI de seu pedestal. Os dois partidos se engajaram numa tal batalha pela Presidência em 2006 que ainda hoje ambos proclamam vitória. Analistas acham improvável que eles juntem forças para propor um candidato único nas eleições presidenciais de 2012, quando o PRI tentará reconquistar Los Piños, a Casa Branca mexicana.

Selee notou que, nesta eleição, cada estado teve uma dinâmica diferente.

Em Oaxaca e Puebla, os eleitores parecem ter-se rebelado contra os governos do PRI, considerados corruptos e autoritários.

Em Sinaloa, berço do tráfico de drogas no país, o povo negou apoio a um candidato que parecia ter ligações com o crime organizado, disse Selee.

Dado o grau de infiltração dos traficantes de drogas em muitas instituições mexicanas, é bem possível que algum candidato ligado a eles tenha sido eleito.

Pode ter sido o prefeito de uma pequena cidade ou um representante local. Se foi um governador, não terá sido a primeira vez. Ainda assim, dizem os analistas, é muito mais provável agora que esse líder corrupto saiba que o povo está vigilante.

internacional · méxico, narcotráfico, violência
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