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Quanto poder tem o Quarto Poder?

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O filósofo alemão Jürgen Habermas está preocupado com o futuro da imprensa. Há sinais no mundo todo de que grandes jornais podem ser vendidos a companhias que não são do ramo jornalístico, nem mesmo intelectual. Na Alemanha isso parece não ser uma ameaça reservada ao futuro, mas realidade do presente. Habermas escreveu sobre isso no jornal Süddeutsche Zeitung (*), em junho, e voltou ao assunto mais recentemente.

Habermas não é um retrógrado, daqueles que imaginam que a internet e outros meios são o Anticristo da imprensa tradicional. O rádio e a TV já foram eleitos no passado como algozes da imprensa mais reflexiva, no entanto, como sabemos hoje, não vieram para fazer mal a nenhum bom jornalista. O temor de Habermas é em relação à maneira como os grandes conglomerados empresariais sem rosto se aproximam das famílias tradicionais que, durante anos, de maneira até heróica, sustentaram o bom jornalismo. A venda de grandes jornais com tradição de informação séria a companhias acostumadas a transformar tudo em saco de batatas fritas é preocupante para um filósofo inteligente como ele.

Habermas continua na linha que rortianos como eu apreciam, a da esquerda democrática, e vê com bons olhos as inovações que ampliam a capacidade de comunicação. Ele não quer que esses jornais fiquem nas mãos daqueles que poderiam transformá-los em peças voltadas para o mero entretenimento, do tipo reality show ou coisa pior. Ao contrário da maior parte da mentalidade de nossa esquerda - que nos últimos tempos tem tido uma esquisita saudade de Stalin -, ele sabe bem que o chamado Quarto Poder tem bem menos poder do que lhe conferem todas as outras instâncias de poder da sociedade. Habermas sabe bem que o jornalismo investigativo que consegue manter posição ideológica firme sem que isso signifique distorção de informações não é algo fácil de sustentar. Jornalismo investigativo não é só caro, ele necessita de determinada tradição liberal-democrática intramuros para se sustentar em sua seriedade.

No Brasil deveríamos ter aprendido essa lição. Imaginei que a minha geração tivesse aprendido. O Estadão, por exemplo, enfrentou a ditadura militar com espaços enormes ocupados com Os Lusíadas. Os mais jovens não sabem disso? Os mais velhos já se esqueceram? Eu, não. E faço questão de relembrar: a cada censura que o governo impunha ao jornal, ele vinha com o espaço censurado preenchido por um trecho do poema épico de Camões. O Estadão não rearranjava sua diagramação. Era como se dissesse à sociedade, todas as manhãs: “O poema está ocupando o lugar de uma informação a seu favor, leitor, e contra o governo.” Era como se o jornal dissesse ao governo, todas as manhãs: “Nosso povo não vai ficar sabendo o que vocês andam aprontando, mas sabe que coisa boa não é.”

Talvez hoje, para um jovem da esquerda, isso não signifique nada. A juventude que se diz de esquerda, hoje, regrediu. Os jovens de esquerda não sabem o valor que a imprensa liberal tem - para a democracia - quando faz oposição consciente a Lula, que se diz de esquerda. Talvez hoje, para algum garotão da direita, isso não mereça ser lembrado, pois a direita não quer recordar o quanto seus pais e avós (políticos) nos fizeram todos ficar imaginando o que o Estadão tinha no lugar de Os Lusíadas. Fico triste quando vejo os mais jovens não aprenderem na escola sobre isso. Fico aborrecido quando vejo os mais velhos querendo jogar areia nesse passado que nos marcou tanto, e que uniu a esquerda democrática aos liberais autênticos.

A direita e a esquerda brasileiras, hoje, pelo sim e pelo não, acabam contribuindo de modo errado para a idéia de que nossa imprensa liberal tradicional é o Quarto Poder. A capacidade analítica de Habermas não se deixa enganar. Por isso, sua proposta para a situação da imprensa alemã tem sido vista (pelos ainda otimistas com a situação) como benéfica. Ele tem sugerido aquilo que o governo alemão já tem feito, ou seja, criar benefícios fiscais e de vários outros tipos para os jornais informativos tradicionais.

É claro que isso só pode ser feito com cuidados especiais. Toda ligação entre imprensa e Estado é, sempre, um passo perigoso. Mesmo a ligação legal e indireta é um passo perigoso. Para um democrata de esquerda como eu, a pior solução para a democratização da informação é aquela coisa do tipo da “TV do Lula”. E não é preciso assistir mais que meia hora àquela TV para vermos como aquilo é ruim de todos os pontos de vista. Não, o que Habermas está propondo não é isso. Ao contrário, é a criação de mecanismos transparentes que possam vir a corrigir não um erro do mercado, mas um erro da falta de mercado. A imprensa livre e informativa “de qualidade”, como ele a denomina, não pode ficar de fora do mercado.

Ao contrário da estatização do jornalismo de qualidade, Habermas está propondo a busca de garantias mínimas de mercado para este jornalismo.

É claro que não tenho espaço aqui para discutir a pragmática disso. Mas a idéia básica está lançada. Ou ampliamos a chance de mercado da imprensa liberal tradicional, que prima pela informação, ou vamos amargar o “day after”. Aliás, a nossa esquerda ainda não se deu conta de que há grandes diferenças entre oposicionistas democratas a Lula e oposicionistas sustentados por grandes conglomerados internacionais. Habermas sabe bem a diferença. Aos 88 anos, ele tem tentando nos avisar a esse respeito. Nossa esquerda que, um dia, chegou a ler Habermas e aplaudi-lo, quando ele tinha um pé mais próximo do marxismo, deveria saber que ele não perdeu o juízo agora. E está ainda mais lúcido.

(*) A tradução do artigo de Habermas se encontra no meu site.

Paulo Ghiraldelli Jr. é filósofo
Site: www.ghiraldelli.pro.br

Postado por Paulo Ghiraldelli Jr., O Estado de S. Paulo em 14/12/07
democratização ·
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